sábado, 19 de dezembro de 2009

A laranjeira do meu quintal

Derramo o verbo antes que raie o dia, e meio entorpecido do sono perdido, penso nas palavras não pensadas; de alma, sonhadoras, significantes de desejos vários que anseiem correr no papel.
O café, a par da caneta fumega, e os aromas da terra acariciam-me os sentidos distraindo a lucubração… Ouço a implacável chuva açoitar o mundo lá fora, enquanto, dentro de mim, brilham palavras que o injusto barulho da chuva calca.

Entre as mãos, aguardo absorto pelo silêncio necessário.
O esforço é grande, mas o barulho não cala... teimoso em anunciar ventos esplendorosamente ousados nesta hora de assombros.

Acendo a luz dos olhos e deparo-me com a insuspeita realidade: Vergada à natureza, numa dança que sacode a terra inteira, a enfezada laranjeira do meu quintal, chora…
Chora de dor, e sentir assumido no respirar da chuva que rasga os céus em procura de novo fôlego; chora, na luz que precede a madrugada na antemanhã confusa, não de queixa, mas de lamento triste, um gemer por ter de viver.

Enfezada e bondosa laranjeira do meu quintal…, vergas com afago e amor, protetora das tuas crias e por receio de vê-las derrubadas… que a sorte te dê guarida.
De te olhar me lembra os que no seu augusto seio, vigilantes, carregam fardos mostrengos de vida, e são tantos e tantas e tão diferentes os que se vergam, com a febre dos humildes, sem que ninguém lhes chegue uma estaca, já que o verbo se torna fácil e não poucas vezes, o alheamento em torpor mortiço, seu irmão.

Que me desculpem os amigos que o verso de mim esperavam. Hoje a laranjeira do meu quintal precisa de uma mão amiga… O capote está à mão… A estaca irei arranjá-la, quem sabe daquele marmeleiro, que tombou à mão adversa de outra desventura.
Talvez me tenha chamado, mas em meu trono de silêncios não a ouvi, ou então não, que as árvores são orgulhosas e eu choro se não ouvi-las.

Aguenta laranjeira do meu quintal!…

Para quê o pensamento? Num outro dia me dedicarei ao verso, hoje é dia de ação e sendo de alma atlântica, assim sou mais eu…
E, laranjeira do meu quintal... a tua sorte não será incerta, nem o teu porto sombrio.

Imagem: Google
ao som de: The Beatles_Don't Let Me Down

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Qualquer coisa assim

"O vento vai dizer lento o que virá. E se chover demais, a gente vai saber"

Minha mala voltou cheia. De momentos, de sorrisos, lágrimas, de vontades e de saudade. Saudade do muito e do pouco que ficou dos instantes que paravam e corriam junto com os ponteiros que nem eu nem você conseguíamos, nem ninguém consegue segurar. Vontade do que nem sei se virá mais porque, sei lá... palpite! Mas... já senti junto com meus devaneios e sonhos quando eu preferi fechar os olhos a ver ...

Enfim,

Sorrisos do vivido com gosto de mais, mesmo que ardendo o céu da boca, de desejo talvez. Mesmo que arranhando a pele e riscando a íris dos olhos. Momentos.

Foi pouco. Foi muito. Foi a eternidade num segundo.

A ida sem volta?
Sim, foi de propósito.

Uma volta sem ida?
Talvez.

Imagem: Carlos Frhun
ao som de: Los Hermanos_O Vento

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Já faz um tempo

Não tenho muito tempo ...

E perto do fim
Não é por mal,
Mas o (meu) amor ainda estava lá
O amor ainda estava lá .

Tenho medo...
O amor ainda está!

Imagem: Samara Bassi
ao som de: Pato Fu_Canção Pra Você Viver Mais

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

... ... ... ... ... ...

Vou-me embora pra Pasárgada.

Imagem: David Petri
ao som de: Diana Krall_Little Girl Blue

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Desassossego

Era madrugada.

Cavoucam em mim sensações que escondo, lágrimas que acontecem, aparecem, que acordam a minha insônia já idosa e vigilante como nó na garganta.

Então penso: Não sei se sou eu quem exercita o desassossego ou se o desassossego é quem se exercita em mim, me testando há algum tempo. Não por “nobreza’”, teimosia, consciência ou filosofia. Foi sempre conseqüência, nunca escolha. Vem tão rápido que quase nunca cogito desafiá-lo ou entendê-lo. Talvez seja mais um desses delírios concretos e que às vezes nos abandona e voam, fartos de chão.

É, talvez eu seja o que chamam de “louca”. Tanto quanto os que dormem em vias públicas e arremessam tampinhas de garrafa em céus de prata. Ou os que tecem agasalhos imaginários, com a credulidade de uma “Penélope ilhada”... Ou não.

O provável é que seja mero instinto que para sobreviver, todas às vezes saí às pressas. E os restos de minhas vidas passadas se resumem a alguns arranhões e estilhaços, pequenos detritos que, sob um olhar mais atento, denunciam-se em riscos que luzem ao sol, mas sob a pele.

Então, supus que tenha deixado para trás todos os tocos de velas acesas na tentativa de iluminar o escuro, todos os vestidos nos cabides, todos os sapatos nas soleiras, insanamente cansados de rumo incerto ou qualquer travessia segura demais e que dentro de mim, restaram estradas barulhentas, guardadas nos armários e vários cacos miúdos de certezas mais que incertas, impossíveis de se refazer. Que não houve tempo de colar, limar, tirar poeira, das coisas pequenas, nem espaço para carregar as grandes. Que eu precisava esquecer, seguir o rumo: a porta de saída.

Quando o meu desassossego vem, depois dele, há um suspeito desapego e me sinto aprender a levar comigo o que nunca me abandona e cabe numa caixinha, no centro da palma da mão: minhas eternas inquietudes, a voz, o gosto e o perfume dele, as histórias do meu pai e da minha avó após as refeições quando brilham os olhos e um sorriso nasce de lembranças tão vivas e também tão empoeiradas, o cheiro do alecrim, da laranjeira... o cheiro de uma saudade quente, de lembranças mornas que às vezes me pairam no ar, na inércia do próprio vazio daquele tão dormente azul do céu, tão azul quanto o olhar do anjo que me levava pra passear nos jardins e parques daqui da cidade e que vez ou outra me leva pra passeios mais sutis, aonde há mais paz, luz e jardins floridos... bem mais floridos!

Comigo, sinto levar as mãos de nuvem de pessoas que encontrei e me tocaram sem temer espinhos, um coração que nasceu velho, atado a uns olhos cheios de infância, um anel, algumas fotos e uma pedra de lápis azul que um hippie cantador e contador de histórias me deu, um dia, na Praça da República, “pra dar sorte”. Talvez eu esteja mais perto dos loucos e essa sensação de leveza que parte do desapego desassossegado e tão apegado àquela paz de segundos, seja a ilusão plácida dos moinhos de vento.

É como sentir e voltar tão veloz e lento pra tão longe e tão perto do tempo, como a noite que vira dia num fechar breve de olhos.

Um dia, alguém vai entender do quê digo, sinto e canto... não por ler o que escrevo, mas por reconhecer as entrelinhas e sentir no que falo, aquilo que calo.

Talvez eu esteja errada.

Talvez o erro, seja a esperança particular de cada um

Ou, talvez eu apenas ache que na próxima vez... seja melhor, possível e muito mais fácil, virar pro lado e tentar conciliar o sono...

Imagem: David Normon
ao som de: Isabella Taviani_Canção Para Um Grande Amor

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Criança

Aos mais jovens e jovens por mais tempo...
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São cócegas que ela me faz, brincando, nas orelhas.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha cotidiana vida de poeta,
E é porque ela anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínino olhar
Me enche de sensação...

Autoria: Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)
Imagem: Stephen Matera
ao som de: Renata Arruda_Ouro Pra Mim

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Natural

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.


Autoria: Fernando Pessoa
Imagem: Nikolai Golovanoff
ao som de:Leila Pinheiro_Uma Voz No Vento

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Ver_Sou

Sou um verso com sorriso aberto e braços à espera de uma rima tão mais simples que possa dar brilho aos dias mais cinzas e um pouco mais de contraste aos dias mais coloridos. Sou um domingo com sorvete, sol, uma rede e amigos queridos. Eu sou o que você pode chamar de pouco, mas inevitavelmente o que você vai saber dizer que é, sem nem precisar ouvir, sentir ou, sequer ver. Sou a lágrima e o sorriso juntos porque o meu sentir é sinestésico e não se percebe divisões. O abraço aguardando o berço guardado de outros braços e assim vou seguindo meus passos sendo até aquilo que você não descobriu ainda. Porque eu simplesmente sou. E, pra aquele que duvidar, eu dou um segundo, um sorriso, uma linha e uma agulha... eu ensino a costurar, sorrir e a colorir. Porque sou um verso que até soa bem naquele fundo musical da corda do teu violão ou de um sopro de flauta, uma gaita de fole. Porque o verso que eu sou, eu aprendi a ser assim... Da forma mais simples que há, só pra caber na estrofe da tua poesia.



Imagem: Danilo Calilung
ao som de: Gabriel Yared_The Unfeeling Kiss

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Dorothy

Tenho tido sonhos estranhos. Tenho sentido coisas estranhas que nem sei explicar e muito menos dar nome. E o que mais me assusta é ver que não há outro caminho a seguir que não esse que se faz trilha no meu destino. E mesmo que não seja cheio de tijolos amarelos, meus sapatos vermelhos não querem outro. Mas meu homem de lata, meu leão e meu espantalho estão tão longe que eu tenho medo. O mágico se escondeu. O homem de lata já encontrou seu coração numa pequenina que virou sua vida, num livro que virou motivação e num povo que sempre foi vocação. O espantalho que acreditava precisar de um cérebro, percebeu que sua inteligência é como sua calma, esteve sempre ali, e ele, tolo, nunca havia percebido. E o rei da selva, que acreditava só ter tamanho, encontra sua coragem nos percalços que o destino escreveu para ele e nota que o que parecia problema, pode ser alegria e o medo é, no fundo, cautela. Quanto ao meu destino e à cidade das Esmeraldas? Quem sabe eu ainda fique lá, protegida, onde sei que nada poderá me fazer mal. Nem sonhos estranhos, nem a saudade dele que me chega alvoroçada... nem uma saudade qualquer.
Imagem: Google
ao som de: Norah Jones_Somewhere Over The Rainbow

domingo, 20 de setembro de 2009

Pote de ouro

Algum lugar além do arco-íris, acima das montanhas, há uma terra que eu ouvi falar uma vez em uma canção de ninar .
Algum lugar do arco íris onde pássaros azuis voam, onde o céu é azul ... e os sonhos que você ousa sonhar, realmente tornam-se realidade.
Um dia eu quis alcançar uma estrela e acordei onde as nuvens estão longe, atrás de mim.
Onde problemas se derretem como balas de limão.
No lugar acima do topo das chaminés... É onde você me achará!

Psiu: Foto tirada às 7:14hs, do 12º andar e Samara, com um copo de café nas mãos. Começar um dia de trabalho assim, anima!

Autoria: Trecho traduzido da Música: Somewhere Over The Rainbow
ao som de: Norah Jones_Somewhere Over The Rainbow


quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Bem leve, leve

"Dali da beira, uma palavra cai no chão..."




Na delicadeza da morna
Tarde deixo o calor das
Rimas fáceis me abrasar
E em pequenas verves
Deixo a poesia brotar
De leve
Bem de leve...


Imagem: Ken Kaminesky
ao som de: Marisa Monte_Bem Leve

domingo, 30 de agosto de 2009

Febre

Quero ser
Tua menina
Sentir-te me
Fazer mulher
Beijando meu ventre
Arrepiando-me a pele
Morna de desejos
Em língua que trafega
Feito brasa
Os gemidos invadindo e
Dissolvendo o entendimento
Do tempo que passa sem ao menos deixar rastros
Quero o gozo
Dos toques mais simples
E dos olhares mais calorosos

É, meu bem!

A voz sumiu
O corpo arde
Em febre
Queima
É desejo latente
Que pulsa
Que chama
O suor encharca
Os lençóis
A febre cede
Mas o desejo
Expande
Quer suar
No esforço
Do enlaçar
De pernas
Línguas,
Peles,
Do côncavo e do convexo...
Sim, do meu e do teu!

Imagem: Lucas Flagui
ao som de: Isabela Taviani_Luxúria

sábado, 29 de agosto de 2009

Jabuticaba

Da jabuticaba retina acende
Brilho fátuo que não identifico...
Uns dizem ser obscuridade,
De qualidade enigmática...
Janela escancarada de alma
Aflita, coisa de gente carente...
Uma ingenuidade feminina,
Coisas de mulher feita, com
Corpo de fêmea e o som de
Uma puerilidade fugaz...
Amplas imagens de mim
Dentro de um espelho que
Não divido tão bem quanto
Os que me decifram por ele...
Tento descobrir-me assim,
Mas tal qual Alice, deito a correr
Por vales e bailes de olhares
Tantos que não são meus...
Em presença muita furto-me
À busca do que desconheço
E no escuro bloqueio o que
Nem finjo que vejo...

Imagem: Vlad Birdu
ao som de: Adriana Calcanhoto_Bagatelas

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Nascente


Eu sou a lágrima do verso
Que o inverso
Da palavra
Chorou.

Imagem: Lúcia Pedrini
ao som de: Norah Jones_One Flight Dow

domingo, 23 de agosto de 2009

Oceano-me

Em preto e branco de um
Gasto retrato, dá-se o trato
Novo no desbotado embotado
Olhar que mergulha em
Branca busca do que em
Uníssono declara
Negro com doce jabuticaba.
Que escorre pelos cantos
Em talo jabuticabeira...
Nas entrelinhas de raízes expostas
Caça-se o tempo que se perde
Facilmente em dias de
Tão vasta vida vadia
Do olhar despertando brilha
A noite quente de tantos
Frios dias bem vividos

Não há redoma de vidro ou
Cristal que me possa reter.
Não há diques e nem me deixo
Prender por eles.
Escorrego num braço de mar,
Oceano-me e rio com pedrarias
De sal em meus cabelos e
Brilho de estrelas nos olhos
Que já há muito deixaram de
Ser baços...
Agora escorro por dedos leves,
Toques sutis e sorrisos abertos
No mar, céu, criando um elo em mim
E além de mim....

Quando olho o mundo e
Sinto perder o
Medo
Tenho a coragem
De um cego
Que sente na ponta dos
Dedos o braile que
Quase traduz o
Nada e o tudo do
Mundo
Muda, procuro
Ler nos lábios,
Com a atenção dos surdos,
As palavras que o
Corpo tece
Como fazem os mudos
E sem pressa vou
Tateando sentidos...

Imagem: Paula P.
ao som de: Sade_Keep Looking

Utopia

Esquadrinho um campo
De nuvens baratas
Que se arrastam fugindo de
Uma tempestade vadia
Há tons de cores frágeis
Rugosidades suaves
Enquanto o vento as
Empurra com certa rusga
Tardes despencam ante
Meu olhar nem tão reverente
Pouco ausente de mim mesma
Mesmo não me esquecendo
De lembrar-me de mim...
Auroras sonham em nascer
Enquanto noites sofrem
Ao lembrar-se que vão morrer
E os dias sorriem tranqüilos
Pois sabem: renascerão em breve...
E parada, enquanto tudo gira
Pisco os olhos que dançam
Nesse ciclo eterno
De um eterno retorno...

Porque, com toda a Lucidez
Que dizem que tenho
Ainda me pego
Querendo o
Invisível...

Sendo assim vou seguindo
com o aprendizado de
não acreditar, muito menos
esperar, pelo utópico...
Utopia!
Sim, ainda acredito, espero... me pego querendo o invisível.

Imagem: Google
ao som de: keep Looking

sábado, 15 de agosto de 2009

Enquanto o mundo gira, gira eu, girassol...

Dia de festa da minha nova idade rs.

Dia de sol, de luz... E caminhando, passo a passo, constrói-se o caminho. Tropeçando ali, caindo acolá; contudo, a história está sendo escrita. A pena toma forma e a alma, corpo. O enredo pode muitas vezes parecer confuso, desconexo. Mas a cada linha, toma contorno uma epopéia convexa.

Novidade que continua continuando, sem inovar, feito rio que corre sem se mover, movido pela força de ter que ir, sem poder ficar. Assim o tempo, a vida, os anos, eu...

Persegue em mim este encanto de saber-me indo. Este não parar, não poder ficar, contínuo indo, constituindo-me para sempre findo. Esta abnegada forma de viver morrendo, crescendo e de ser feliz... com lágrimas nos olhos e sorriso nos lábios e a sinestesia do vice-versa também, porque eu, definitivamente, não sou feita de margens e quem dirá, de separações.

Psiu: Obrigada pelo carinho e a todos que estiveram (estão e sempre estarão) comigo, de corpo e/ou de coração. Abraços

Imagem: Luis Costa Maia
ao som de: The Beatles_I Want To Hold Your Hand

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Sal do Sol - riso

Ah, esse riso guardado nos olhos!
Mas falo do que fica nos lábios
Morando ao lado daquela menina charmosa
E que me sorri sem margem alguma
Que voa e deságua em mim
Um que de não sei bem o que
Que lava a tristeza junto com a poeira da distância
E trás pra solo firme
Das estradas e dos meus continentes
As saudades que ficaram retidas em cada gota
Desse oceano-lágrima que cabe além de mim
E além das horas invertidas
Tempera as manhãs às avessas
Daquilo que não tem medida

Imagem: Luca Tettoni
ao som de: Peter Cetera_Glory Of Love

Voo

No linear das horas
Quando meus olhos se fecham
Abrem-se caminhos estelares
Por estradas de rios
Onde os pés pisam descalços os passos
Que se não fossem leves
Não conseguiriam levantar voo

Imagem: Martin Harvey
ao som de: Peter Cetera_Glory Of Love

sábado, 8 de agosto de 2009

Casa

Os finais de semana favorecem muito o diálogo interior, pelo menos para mim é assim. É quando converso comigo mesma... agrada-me a subjetivação. Ultrapasso os limites e varro-me sem complacência. Por um tempinho, cabe-me estar comigo e ninguém mais. Preciso disso.

Esqueço o tempo, o espaço, e por momentos, desembrulho o que me aconteceu durante a semana, de ruim e de bom. O que foi ruim, deixo que a ventania gélida leve aos poucos porque nada se perde, apenas se transforma em outra coisa. E o que foi bom, quero para dentro, bem guardado num lugar quentinho que é o coração.

É assim que consigo conhecer o tecido da minha alma, com a mesma intensidade que apalpo a pele do meu corpo. Conheço-me para conhecer a ti e a nós, porque percebo que a vida se pauta desta forma: Relações Mútuas.

Volto para mim... Preciso sempre voltar para mim.
Recolho-me...

Dou-me um tempo neste silêncio para esvaziar o pensamento e descubro-me. Esqueço de ser e depois sugo de mim mesma todas as possibilidades de acertos.
Penso nos sentimentos que ainda não me usurparam e assim volto a achar-me...Volto pra mim!
E é onde a alegria do retorno me acalenta e me faz inteira novamente. Me faz continuar a mergulhar na vida, assim como mergulho em mim.

Imagem: Paulo Correia
ao som de: Sarah McLachlan_Angel

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Afinidade

...é um dos poucos sentimentos que resistem ao tempo e ao depois.
A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos.
É o mais independente também.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação (qualquer relação), o diálogo, a conversa, o afeto no exato ponto em que foi interrompido.
Ter afinidade é muito raro.
Mas quando existe não precisa de códigos verbais para se manifestar.
Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas.

Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavras. é receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.
Não é sentir nem sentir contra...
Nem sentir para...
Nem sentir por....
Nem sentir pelo.
Afinidade é sentir com.
Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo.
É olhar e perceber.
É mais calar do que falar, ou, quando falar, jamais explicar: apenas afirmar.

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças.

É conversar no silêncio, tanto nas possibilidades exercidas quanto das impossibilidades vividas.
Afinidade é retomar a relação no ponto em que parou sem lamentar o tempo de separação.
Porque tempo e separação nunca existiram.
Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida.

Autoria: Desconhecida
Imagem: Paulo Correia
ao som de: Extreme_More Than Words